sexta-feira, 9 de julho de 2010

Enquanto há vida, não será o fim do mundo


 

Teenage Stories – Gulliver revisited by Julia Fullerton-Batten

Seus olhos fixos; ainda lembro como agora, eu vermelho cheia de marcas. Quando você chegou, estava soando, meus olhos não sabiam te enfrentar. Tentei esconder todas as manchas que poderiam derrubar toda aquela maquiagem lilás que fixei nas pálpebras, todo meu cabelo não ficou do jeito que eu queria, escondi minha flacidez com o short branco listrado e minha blusa azul com pouca estampa e nada de brilho, ainda não sei se conseguir de certo esconder tudo.

Seus ouvidos prontos, e seus olhos, acompanhavam minha boca, me desmanchei um pouco mais, como se eu morresse. E você dizia que era pra eu ter calma, me pedia pra continuar a dizer minhas visões de mundo, da nossa conversa no Messenger, sobre minhas ideias coloridas, decepcionantes, mas ainda sim, teve que concordar que todas são verdades, ele não entendia muito bem de como e tanto de mim. Mas me observava, atentamente.

Vez ou outra sentia teu abandono igual a mim, falava como se eu fosse a única a querer de verdade escutá-lo, argumentei de nossa igualdade, de nosso sofrimento, e também mostrei que sofremos por pouco, por tão pouco. A vida é isso mesmo! Assim eu disse - Um pouco de fôlego e convencimento. E mais, a gente complica tudo. Olhe pra você como se seu corpo fosse um simples cérebro ambulante, esqueça de suas pernas, de suas enormes pernas, de seus braços, da sua bexiga que nos lembra que existe, um simples cérebro controla nosso corpo, uma máquina perfeita. Tudo está na nossa cabeça, miséria de tudo e sucesso de vida.

Olhe pro mundo, veja os outros cérebros: eles namoram, eles bebem, eles compram, eles andam de carro, eles foram a Lisboa, eles cantam, eles usam botas, eles matam, eles lêem a bíblia, eles choram, eles são brancos, eles são ruivos, eles têm unhas grandes, eles ainda jogam Tecktoy, eles usam drogas, eles são gays, eles têm apartamentos, eles devem, eles ouvem Cueio Limão, eles não têm pai, eles não curtem academia, eles provocam a morte, eles se escondem do mundo, eles são feios e alguns sortudos, eles não te conhecem, eles são eles, eles são os outros; você só é mais um na vista de outro.

Então, o que é eterno? É a vida! Acredito em Deus, também acredito no demônio, acredito nos seus poderes, nas suas forças, nas suas armas, sei que os demônios têm raiva de nós seres humanos, porque nós decidimos aonde ir, eles são derrotados, temem a volta para o inferno. Se existe Deus e demônios, há o céu e o inferno, não preciso entrar em detalhes sobre isso. Deus não quer que soframos se estamos assim, foi de nossas escolhas erradas. Só isso. E em todo momento nossa consciência alerta o que devemos fazer, mas nossa carne, nossa vontade insiste por outro rumo. Os resultados não costumam vir cheio de dentes, de dinheiro, de saúde, de amor.  Crescemos todos os dias a cada espanto, a cada descoberta, então vamos evoluir um pouco mais do que era previsto.

[Diante alguns problemas, da minha insanidade, das manias, de tudo isso que me fez pequeno, frágil e estúpido, conseguir me reerguer quando Deus usou suas armas, suas palavras, agindo de dentro pra fora, eu nem sei bem no que me transformei. Em como estava, uma simples folha branca não me convidava pra rabiscá-la, tampouco a compor, não tinha um querer bobo de escrever a todo o momento, o que me trouxe aqui, foi somente o respeito que tenho pelos outros, por vocês, por você.]

Confesso que enxergava distorções da realidade, a chegada do fim que nunca vem, tocava as dores de um homem e corroia sua vontade de desaparecer, o fiz ficar e ele transferiu um pouco de sua bagagem; tudo que eu fiz foi querer amparar, como se eu fosse à resposta. Navego dentro de mim e tem mais pra ser arrancado, tem mais pra compartilhar, tem mais de mim que tem ser jogado pra fora, tem mais pra esse homem ficar aliviado, assim posso ajudar a doar suas roupas velhas ou simplesmente queimá-las. Só que eu não sou de aço, não sou ainda o que planejei, ainda tenho que conquistar e mudar tudo em mim.

Enquanto não vinha descrever, permaneci parada, tudo continuou desabando e aleijando meus sonhos, os problemas ainda estão aqui, estão comigo, mas não são meus é do demônio! E ele riu! Dizendo, extasiado: Meu Deus que menina! E eu fiquei com vergonha, num sei de quê. Ora, eu sei. Eu converso demais, tinha esquecido que era só pra ficar e nunca mais.

Quanto mais o tempo passa me torno mais criança, é imbecil, mas não estou na pior, pois nada me perturba, nem os carros, sons típicos de rua, soam como qualquer sinfonia, que me deixa mais com sono, uma preguiça que me salva de um caos maior, brinco feito criança, entendendo que as aparências nem são tão más. E tudo prossegui naturalmente, unindo e distanciando, alargando e fugindo. Enfim, não devemos viver angustiados, apesar de estarmos em angústias sempre.

Um comentário:

  1. Lindo texto amiga. Parabéns pelo blog, siga em frente, use este espaço para se comunicar com o mundo. Grande abraço.

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