quarta-feira, 12 de maio de 2010

Injeção de Ânimo


Aprendi que é preciso mais, desistir talvez, a não desanimar quando tudo te lesa, busquei por mim, me vi em calores em amores escuros, que secam em meio a chuvas, enganos torrenciais, um caminho para se encontrar em tudo que não é visível.
O mundo não para!  O mundo não para pra esperar lágrimas caírem e tocarem o chão numa irrigação já sem necessidade, não te dar escolhas, apenas caminhos e o mais vistoso é um amargo, largos mais estão cheios de ameaças, o que é bom é longo e pesado.
Hoje foi como passagem de gente, no meu lugar onde sou única e me perturbaram. Estavam cheios de interesses próprios e exaustivos pra mim. Seus bolsos furados, suas injúrias familiares, o remédio já não está na prateleira, enfim, só queriam algo de mim que não fosse pesado, menos carregado e não me enxergavam.
Recebi um envelope quase que confidencial, garantir que estava em boas mãos, mas duvidaram de mim, fiquei desgastada, meus esforços e todos os meus cuidados foram em vão. Mas meu dia não ficou ali.
Naquele início de tarde, aparece uma mulher e da sua chegada, me encontrei na sua frente, mas não me viu, foi péssimo, fiquei revoltada, mas há quem diga que a vida é assim mesmo, sem saber o porquê das coisas.
Eu como eterna insatisfeita, esperei ela voltar daquela porta amarela e que depois dela ofereciam gentilezas e algumas meias palavras, quando ela saiu, tentei ser agradável:
 - Café, algum doce?
Ela disse:
- Não, não, moça.
- Não se preocupe, logo vai dar certo!
Eu disse; em meio a tantas inseguranças, daquela mulher cheia de marcas, de uma infância cheia de censuras, dos sofrimentos: da Ditadura Militar, da liberdade de expressão, do reconhecimento da mulher na sociedade; nisso que perdurou por longos anos até as dores atuais.
Não perguntei sobre o que veio fazer ali, sinceramente não me importava do amanhã daquela mulher, pra mim só era mais um rosto, configurado do tempo, de problemas que não conheço.
Em um instante pude ver meus amigos imaginários, quando ela me notou, quando ela olhou pra mim cheia de dentes, largas bochechas, com um tique de quem não recebia atenção por um bom tempo; aqueles amigos imaginários não me conhecem.
Os amigos imaginários estavam em casa, bebendo, assistindo tevê, uns jogados no chão, outros debruçados na mesa ao alcance do controle remoto, chinelos espalhados, apenas de bermudas, estavam comendo alguma gororoba com leite condensado.
Era garotos como eu; passo tardes remexendo outra coisa depois de tanta fofoca na tevê e das mortes, dos furtos anunciados em jornais de outro estado, buscando um alívio desse mundinho tão igual, tão repetitivo, tão cheio de normas.
Aquela mãe pendurou-se num desses programas de bolsa família ou bolsa escola, sim... Nesses de governo, não via nela algo parecido comigo, nada, nadinha. Eu sou tão cheia de expectativas, de soluções loucas, numa matemática que da pra aprender, quando se tem ouvidos.
Ela estava com seus momentos iguais, de suas esperanças cortadas sem pé de explicação. Pra ela aquilo tudo, a má sorte: era destino.
Aquelas minhas palavras serviram pra ela chegar em casa com ânimo, injetei nela minhas doses, aquelas que você se olha no espelho e desejam que seja tudo diferente. Que se danem as teorias, os medos que o mundo se torne miúdo em minhas mãos.
Ela sorriu pra mim.
Sei que quando chegou em casa proliferou o que tenho por dentro, que as vezes fica tão dentro, tão dentro, que eu fico apagada, sem entender minha matemática.
E... Eu rir para ela.
Rir acolhendo suas esperanças; multipliquei seus sonhos. Mas o que eu tinha só eram palavras, ela desconhece o significado de ‘revolta’. E fico mais revoltada ainda, pois ela não sabe mesmo o que é revolta.
Revolta não é brigar com o mundo, é buscar acontecer, é não esperar os outros decidirem por você, não esmorecer por quem você tanto admira por quem não te ver, não se escandalizar com os fracassos alheios.  É não deixar morrer suas verdades, é não deixar de acreditar que você é capaz.
Nesse embalo, eu fico drogada.
Penso nos medíocres que nunca se realizam, nunca vão estar onde poucos conseguem estar, não acreditam em si e viram assassinos de sonhos, de profetas, de gente que como eu, preciso de Deus. Mas nunca me mataram.
Determinar, crer e receber.
É preciso ter domínio, mas pra isso é preciso se conhecer, buscar pelo irreal, quando se quer tanto. É se doar um pouco mais no cotidiano, reconstruir conceitos.
Meus amigos me sentiram, quando aquela mulher chegou em casa, ela transmitiu um pedaço de mim.
Descobrir que os fins têm outros fins, uma ramificação complexa, salvei o dia dela e ela salvou o meu, só queria que me vissem. E solidão não existe, o que existe apenas o isolamento de si e dos outros. Amar é compartilhar, é se doar e aprender a dizer Sim e Não, pra mim e pro outro.
A Rebeca não foi recepcionista ou aquela “marketeira”, ela esteve com seus fantasmas, com sua fobia de solidão, agora ela sabe o que tanto busca agora mais do que nunca, não deixou a criança interior morrer.
A Rebeca, está mudando, mudando devagar, reinventando, reconstruindo, despertando a fé.
Rebeca é a Becka de todos, de todos os quê, a conhecem.
Descubro o que é amar a si mesmo e amar os outros, mesmo que eles não a conheçam, eles estão perto de nós, sentem nossos passos.
Se desconectem da verdade, nadem em rios escuros e frios, se aconcheguem em terremotos impalpáveis e se apaixonem, mas voltem, voltem sempre que poderem para a existência, a realidade apenas fica mais leve, um pouco rosa.
Estou rosa, estou tocando me deliciando em verdades e elas existem. Estou alucinada, mas estou sentindo tudo ao mesmo tempo estou parando e ao mesmo correndo, tento explicar, mas não dar, essa minha matemática está me empurrando e me tirando do sufoco, alucinada, mas estou feliz.

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